www.deuseodiabo.hpg.com.br

69


Por Rafael Martinelli

O Nei, da Bruxa de Pano, me ligou convidando para conhecer o Serguei. Ele estava no estúdio do Lula, em Cachoeirinha. Telefonei para o Alex Osterkamp e combinamos uma visita, na quarta-feira, à noite. O Dirnei Júnior, que fez as fotos, me levou. No caminho compramos dois Abbels. Tirei um saca-rolhas que carregava no bolso do casaco e comecei a abrir um dentro do carro. Tive que empurrar a rolha, pois ela esmigalhou-se. Bebi uns goles. Chegamos. Estacionamos em frente ao estúdio. Acendi um cigarro enquanto caminhava, com a sacola com os Abbels na mão, pelo pequeno corredor que levava à recepção do estúdio. O Robinson Gambôa também estava lá fotografando. Alguém apresentou-nos ao Serguei. O chamamos para a frente do estúdio, pois eu e Alex queríamos fumar cigarros e a sala era pequena. Havia umas seis pessoas ali. Não tinha nem ligado o gravador ainda e ele começou a contar a história do relacionamento com a Janis Joplin. Apareceu um copo. Eu e o Alex continuamos a beber. Ofereci ao Serguei. Não quis. Só disse: "Vinho é afrodisíaco". Liguei o gravador e começamos a entrevista. Mais como uma conversa. Não me interessou saber cronologias e planos. O que eu queria era ouvir histórias reais ou imaginárias. E ele contou. Acho que dos dois tipos. Ficamos por uma hora, ali fora, conversando. Apertei-o sobre arte, indústria cultural, amor, estilos e épocas e política. Eu e o Alex matamos os dois Abbels e quase uma carteira de cigarro. Por vezes uma menina entrava e saia do estúdio com uma câmera, filmando-nos. Dirnei Júnior fotografava e, quando acabou o espaço na digital, foi embora. Serguei protestou um pouco. "Me pegou nos piores ângulos", disse. Entreguei um CD Deus e o Diabo a ele. Olhou e disse: "Legal". Pediu uma dedicatória. Escrevi. Ele foi levar o CD para guardar na mala.

Entramos no estúdio. Ali um cara começou a falar sobre o que Serguei e ele fariam no Rio Grande do Sul. Perguntei: "Você é o Lula? (dono do estúdio)". Ele respondeu. "Não, o Lula é ele". Apontou para o cara que me trouxera um copo quando bebíamos o primeiro Abbel no bico. Perguntei: "Qual é o teu nome, então?". "Guilherme de Pádua", ele respondeu. Não gostei. Mas ele logo emendou: "Sou Emerson Links". E completou dizendo que naquela semana tinha aparecido no jornal A, no B, na TV, no rádio e que, antes, tivera páginas e páginas no Jornal do Brasil e na Folha. Fiquei quieto. Pensei: "Que babaca". Aí ele contou que preparava um projeto multimídia, chamado Ritmo Rebelde, onde haveria um longa-metragem, documentário, livros e CDs sobre a história do rock. Serguei era um dos entrevistados. Aí a conversa virou para a indústria cultural. Ele reclamou que só apadrinhados apareciam na grande mídia. Então resolvi queimá-lo e disse que não me sensibilizavam aparições na grande mídia e nem páginas e páginas de jornais. "Tentaste me dar uma queimadinha, mas é justamente essa ´arte´ de páginas e páginas de jornal que não me interessa", eu disse. Ele reagiu dizendo que não havia tentado me queimar. Mas aí já era tarde e o clima ficou ruim. Serguei, que acompanhava o diálogo sentado em uma cadeira, quieto, interviu dizendo que o tal Links não era seu empresário, nem nada seu. "A entrevista é comigo", disse o Serguei. Acendi outro cigarro e convidei o Alex para compramos cerveja. Saíamos para a rua quando o Serguei

surgiu atrás de nós. Estava descalço. Disse: "Não dêem bola para ele. A conversa é comigo". Nos abraçou. Abraçamos ele. Gente fina. E fomos caminhando, já meio altos, sob uma chuva fina. Chegamos no bar, onde um rádio em alto volume transmitia um jogo do Grêmio. "Aqui no Sul sou do Grêmio", brincou. Protestei. Os atendentes do bar já conheciam o Serguei. Compramos uma meia dúzia de cervejas. Voltamos ao estúdio. Ouvi mais um pouco o bla-blá-blá do Links, que agora falava sobre uma palestra que faria sobre rock, no dia seguinte, com o Serguei. Eu lembro apenas de repetir a ele, várias vezes, "mas vê se deixa ele (Serguei) falar, vê se deixa ele falar, é ele quem tem que falar". Ficamos bebendo a cerveja e ouvindo histórias. A fita já havia acabado. Serguei me perguntou como achava que seria o show que faria em um bar de Cachoeirinha. Fui sutil, mas não poderia enganá-lo. Pouca gente iria. Ele quis saber com o Lula, que organizava o espetáculo, qual era a divulgação. Disseram-lhe que havia uma faixa em frente ao bar. Ele reclamou: "Só uma faixa? Tinha que ter um poster gigante, eu na foto, com um sol pintado no rosto". Pedi que Serguei fizesse um som. Uns me olharam com cara feia. A Bruxa de Pano ensaiava. Matamos a cerveja. Serguei levantou e me chamou para o estúdio. Entramos. Ele pediu para cantar. Pegou um microfone. Peguei outro. O Alex entrou. O Lula também. Pegou a guitarra. Puxaram Jump in Jack Flesh, dos Stones. Cantamos. Gravei. Bebemos a cerveja da banda. Aí veio uma balada. Essa era boa. O cara cantou legal, com sentimento. Saiu do estúdio. Fiquei e cantei mais uma. Born to be Wild. Voltei à sala. Nos despedimos do Serguei. Ele deu um telefone e ensinou como ir até o Templo do Rock. "Me liga que eu espero vocês na rodoviária". Fomos embora. Cara simples. Gente boa. Leia a entrevista.

Martinelli - És natural de onde?

Serguei - Nasci no Rio Comprido, perto do Estácio. Vizinho do Estácio de Sá. Perto de Vila Isabel.

Martinelli - Como foi tua infância, tua adolescência?

Serguei - Foi meio a meio. Eu morei nos Estados Unidos, meu avô era de lá. Garoto, com 16 anos. E morei no Brasil. É muito difícil guardar datas. É muito tempo de vida. Estou vivo a muito tempo, entendeu? Minha infância, minha adolescência, foram maravilhosas. Começou Elvis, essa coisa toda. Chuck Berry, que iniciou o rock´n´roll. Depois peguei Beatles e Rolling Stones no Brasil. Quando voltei para lá vi Beatles no Sheam Stadium, em Nova York. Era um estádio tipo Maracanã, mas cortado ao meio. Tipo um meio queijo. E as garotas comiam a grama com a marca do sapato dos Beatles, de onde eles saíam dos camarins. Quer dizer: vi e vivi intensamente a época psicodélica, da flower power genearation, a geração da flor, do poder e do amor. Vi Allan Ginsberg, conheci Andy Wharol. Sabe quem é?

Martinelli- Sim. E esses encontros?

Serguei - Conheci Wharol no CBGBs, primeiro clube de punk rock do mundo. Na Segunda Avenida, em Nova York. Eles estavam com Bill Wymann e os Hells Angels. Eu sou dos Hells Angels do Brasil. A sede era no Rio. Agora está em São Paulo. Nós no Rio não estamos com porra nenhuma. Eu sou carioca, mas dissidente. Moro em Saquarema, que é um dos paraísos terrestres no Brasil. É lindo. Tenho muito apoio do governo local, do público e das pessoas. Moro no Templo do Rock, que é uma casa que fica na esquina, na entrada do bairro de Itauna, com 12 bandeiras rock escrito: Templo do Rock. À esquerda tem um pedaço de pau. Um toco, pintado de marrom, comprido. E em cima um poster gigantesco, colorido, feito de um material especial, com eu beijando a Janis. Ela segurando o copo, com os olhos fechados e me beijando. Eu segurando o queixo dela. E beijando. Serguei, hoje beirando os 70, e sua vida bandida com Janis. Sergio Augusto dos Anjos.

Martinelli - Isso foram poucos dias antes dela morrer, não? Como ela estava?

Serguei - Nós nos conhecemos através de Laudir Oliveira, que é um dos grandes percussionistas do mundo. Se não fosse, ele não teria tocado na banda Chicago. Era década de 60. Eu conheci a Janis em 68, num festival no parque, um festival de escolas. Em Long Island, onde morava. O Laudir vinha descendo com ela e nos apresentou. Ela, baixinha, cabelo comprido, óculos, linda, disse: "oi". Laudir falou "Janis Joplin, Serguei". Eu falei: "Ah. Pensei que fosse Marilyn Monroe". E disse para ele, não acreditando: "Pára com isso Laudir". Virei para ela: "Me desculpe, I´m sorry". Ele, nada. Eu olhei para aquela mulher. Ela, "que passa, como estás". Quando eu vi que era Janis Joplin pedi perdão. Ela me deu um beijo na boca, um abraço. Dei um beijo nela. Eu disse: "Oh, my God". Chorei, fiquei emocionado. O Laudir acabou comigo naquele dia. Laudir Oliveira, percussionista da banda Chicago. Hoje mora num subúrbio do Rio. Não sei o que aconteceu, "nunca vou largar essa banda, porque nós somos uma família e etc.", mas acabou largando. E a banda, não sei se acabou, acho que acabou. O Chicago. Não sei se voltou. Sei que ele mora lá. Depois encontrei a Janis em 70 para 71. No Rio. Eu estava na casa do Sérgio Murilo. Ele disse: "A Janis está no Rio". E eu: "Cala a boca Sérgio". Foi o seguinte: eu morava em Copacabana, na Barata Ribeiro, esquina com a Siqueira Campos. Só que ao invés de andar pela praia, pela calçada, pela Avenida Atlântica, caminhava por dentro. Quando passava pela calçada do Copacabana Palace, vi aquela mulher, usando um turbante, não sei qual era a roupa, ela usava muito aquele tipo de roupa. Junto com ela um loiro, alto, bonito. Pensei: "Interessante essa mulher". Aí vi: "É a Janis". Eu disse: "Tell how are you?". Ela: "Serguei, my God, you´re my brother". Eu estava cantando num cabaré. Disse: "vamos pegar um táxi e vamos para o cabaré". Ela perguntou: "É longe?". Eu disse: "Não". Então fomos andando. Ela com uma saia cigana, descalça. Chegamos ao cabaré e o porteiro disse: "Não, essa mulher suja, descalça, não pode entrar". Eu disse: "Tá maluco? Chama o Silva". Aí veio o Silva. Eu falei: "Essa mulher é a maior vendedora de discos do mundo". Ele reclamou: "O caralho. Tú Serguei, há horas que me dá raiva, és um viado. E a Darlene uma puta. Estou cheio dessa porra, vocês viraram a casa de pernas pro ar". Ele falava da Darlene Gloria, atriz, Palma de Ouro em Cannes, que era amante do segurança da boate, Manoel Mariscot. Eu mandei o Silva calar a boca. E ele: "Então manda, manda essa mulher entrar". Ela teve um ataque de raiva, mas entrou. Ela sentou, pediu vodka: "Diz para pé de valsa para trazer uma vodka". O garçom veio. Ela disse: "Traz uma vodka. Eu quero vodka, Serguei". Veio uma garrafa e ela bebeu pelo gargalo. Eu fui cantar. Cantei Baby What I say. Não: cantei Tropicália. E ela gritou "bravo Serguei, bravo". Então comecei a cantar Hey mama. Comecei a cantar Baby What I say. Aí ela pulou no palco, me abraçou, e começou a cantar: "Hey mama, Hey mama, C´mon mama, give me one night long, allright". Eu pensei "puta que pariu". E falei: "vai Antônio Carlos, blues". Ele: "Serguei, essa é Janis Joplin, mesmo?". Eu falei: "Porra, eu acho que é". Boi, que era um crioulo, ficou branco, com aquele olho dele de bêbado. Cristóvão, no órgão, que na época não tinha teclado, era órgão mesmo. E Antônio Carlos, desse tamanho, um mulatinho que tocava garrafa, tch, tch, tch..Eu disse: "Vamos lá. Toca, porra, mas toca arrastado". Tocaram. Quando acabou, ela foi muito aplaudida. Foi um terror. Não paravam mais de aplaudir e ela começou: "Sit down by the window. Honey I´m looking fot it" E começou a cantar Ball and Chain. Foi um terror. O povo se levantou. Eu falei,é a primeira vez, quem sabe a última, que estão vendo uma vendedora de milhões de discos no mundo inteiro, uma das maiores estrelas do planeta Terra. Veio da Califórnia para cá. Ninguém mais parava de aplaudir.

Martinelli - Qual era a casa, no Rio?

Serguei - Mudou de nome diversas vezes. Foi New Holliday, mas era o porão 73, que era marcante ali. No Leme, Copa, esquina com Princesa Isabel. Era uma casa de mulheres. Só tinha mulheres finas. Eu fazia o show, apresentado em português e inglês. Depois cantava. Tinham mulheres, marinheiros, Era muito lindo o local. Ficava no porto. Eu me encontrava ali, sempre fui da noite. Mas aí aconteceu que o português, debruçado na mesa, com a mão na cara. "O que houve Silva", perguntei. "Serguei", ele respondeu: "Pode fazer um favor para mim: dá na minha cara. Puta que pariu, a maluca canta bem, em? Dá o que ela queser. Manda descer todo o bar, o que ela quiser é dela". Eu disse: "Ela quer um cachê". E o Silva: "Estais maluco". Ela com um anel de brilhantes. Eram 3h da manhã. Fomos embora então. Ela estava no Copacabana Palace. Depois fomos a praia. Era noite. Ficamos transando. Eu ela e o holandês fizemos um swing. A Janis estava muito detonada.

Martinelli - Criaste um quadro mental sobre o que consumiu aquela mulher?

Serguei - Drogas. Nada além. Eu não estou aqui para sustentar a máfia desdentada do Brasil. O cara vem me vender a morte. E eu sou tão estúpido que pago quem vem me vender o pior tipo de morte, que é a morte em vida. Dedo nele, pelo amor de Deus.

Martinelli - És contra as drogas?

Serguei - Não sou contra as drogas. Eu sou a favor da minha preservação física e mental, da minha alegria de viver e, acima de tudo, da minha emoção. Não mate suas emoções. A vida é emoção. Estou triste, vou na droga. Estou alegre, vou na droga. Não. Se eu estou triste, choro. Se estou alegre, sorrio.

Martinelli - E a indústria cultural?

Serguei - Eu sempre fiz reservas ao Brasil como país. O Brasil é um continente, tudo bem. Brasil país riquíssimo. Mas, e dai? Nós somos o povo, nós somos a nação. Se a nação te dá as costas, dedo no cú dela, costas pra ela. Se ela te dá a resposta, você dá a resposta a ela. É como mãe. Ser mãe não é só parir. O cara chega lá, come a mulher, a mulher fica barriguda, expele a criança. Vem a maternidade, bota um bacuri na Terra, que é mais um. Tinha que haver um controle de natalidade. Digo isso desde os 15 anos. É simples. Ser mãe é dar amor, dar carinho, consideração. Se a mãe não dá carinho, não dá amor, não se sacrifica, não cuida do filho, ela não é mãe. E se a pátria é mãe, então sou um filho da puta. O que eu fiz no Brasil durante esse tempo todo de trabalho, não vi nenhuma resposta. Nem eu, nem ninguém. É a pior distribuição de renda do mundo. Para engolir o Brasil eu tenho que morar em São Paulo, ou no Rio Grande do Sul, ou no Paraná, ou em Santa Catarina. O país é muito atrasado. Mas não existe progresso sem ordem, tanto que na bandeira do Brasil está escrito ´ordem e progresso´. O Brasil não é como os Estados Unidos, um país de leis inteligentes e sempre atualizadas. As leis brasileiras são muito antigas, são napoleônicas. Você vê uma prisão de segurança máxima no Brasil, coisa mais burra. Se é de segurança máxima, como uns facínoras, bandidos, tem direitos? Não podem ter direito a celular. Para quê? Para comandar isso ou aquilo? Não entendo, não pode. Os portugueses fazem piadas sobre nós, como sendo burros. "E aí chegou um brasileiro....". Eu tenho que me orgulhar sabe de quem? Da minha mãe, do meu pai, e de mim mesmo. Maria Lopes Bustamante e Domingos Bustamente. Não tenho que me orgulhar de país nenhum. Nós somos o povo, nós somos a nação. Se a nação não nos dá nada.... Nós não participamos dessa chamada riqueza brasileira. Um dia vi na CNN uma câmera mostrando Copacabana. O Rio, em matéria de beleza topográfica, não tem nada que se pareça. O Rio é um espetáculo, é uma coisa maravilhosa, que tem desde o céu calcitante de Copacabana, ou Saquarema, Região dos Lagos, onde moro, até a neve, nas montanhas de 800 metros do Parque Nacional de Itatiaia, que é Rio de Janeiro. Chega lá no auge do inverno tem vezes que neva. Neve no Rio. Aí a CNN mostrou a vista de um milhão de dólares, Copacabana. Deu um zoom na câmera e pegou as favelas. É, "mas a economia desse país está se tornando uma economia forte na América Latina, a primeira". Mas bastou um zoom para mostrar a realidade, onde milhares de crianças brincam nos lixões do Rio, comem e dormem. Não me fala nesse papo de Brasil. A gente chega em São Paulo, leva um susto. É mais organizado. Chega em Santa Catarina, que povo bonito, que gente educada. O garoto porteiro do hotel tinha seu carrinho. O dinheiro circula. No Paraná a casa também estava arrumada. Cheguei no Rio Grande do Sul. Com a visão que eu tenho de mundo, eu não sou estúpido. Eu leio, eu sei. O Rio Grande do Sul é um outro país. Supera até São Paulo, principalmente em termos culturais e até desenvolvimento e distribuição de renda. O povo é lindo educadíssimo. Você sai pelas ruas, rua mesmo, gosto de testar a popularidade, e você vê. Eu moraria, de São Paulo para baixo. Agora, o Rio já me irrita. Mas eu moro em Saquarema, que é um paraíso. É uma coisa linda, hipersuper-bem administrada. Tudo asfaltado, as lagoas iluminadas e com ciclovias. E aquele panorama, com as montanhas ao fundo. Saquarema é uma jóia no Oceano Atlântico. Eu moro ali. Não tenho pátria. Sou um cidadão do mundo. É a posição mais confortável que achei para mim mesmo para não ficar ouvindo coisas como ouvi nos Estados Unidos. Eu adoro a América. Às vezes a gente reclama, mas é que eles conseguiram uma posição no mundo, de um poder tal, que eles tem outras preocupações que nós não temos. Se alguém vier nos atacar, eles é que nos defenderão. A guerra agora é apertar um botão. Eles tem três homens em Nebraska que vão dizer se vamos continuar ou não conversando. É uma potência, onde todos vãos às universidades, tem direito a tudo. Estou muito tranqüilo. Adorei o Rio Grande do Sul. Um lugar com quatro estações do ano definidas.

Martinelli - A indústria cultural e os próprios formadores de opinião não alimentam uma sociedade de consumo, da quantidade ao invés da qualidade?

Serguei - É verdade, isso com certeza absoluta.

Martinelli - Que testemunho podes dar? És um cara completamente à margem, um marginal. Isso é, ou não, mais bonito para a arte?

Serguei - Não me importo. Com certeza é mais bonito. Eu nunca fui um vendedor de discos, em especial no Brasil. Sempre me antecipei, fui vanguarda. Eu nunca cedi às gravadoras. Sempre disse: "Isso eu não quero cantar" ou "isso não quero gravar". No Brasil, atualmente, existe, não sei como está aqui no Sul, mas você liga o rádio e é obrigado a ouvir aquele xarope de pagode, música sertaneja, música baiana, que é aquele saco dos sacos, dia e noite no teu ouvido. Não há mais lugar para o rock´n´roll. Quer dizer, há. É uma linguagem universal. Você vai da Alemanha à Bolívia e tem sempre uma banda de rock. Mas não no rádio.

Osterkamp - Há alguma qualidade no som popular?

Serguei - Há muita qualidade. Não gosto de música baiana, mas curto Caetano Veloso, Dorival Caymmi. Quer dizer, o rock´n´roll é uma linguagem universal. Conhece a banda Metallica? Faz um rock esporrento. A banda participou de um concerto com a Orquestra Filarmônica de Washington. A Orquestra e a Metallica tocando juntos. Não é qualquer músico que pode tocar com a Orquestra de Washington. Não é uma bandinha de bar ali da esquina. Há o Led Zeppelin, com obras-primas como Stairway to Heaven, que é de uma poesia, uma delicadeza. Os Beatles, eu considero-os a maior obra músico-literária de todos os tempos. Se você analisar a linha melódica e as letras, desde as ácidas como Lucy in the sky with diamonds. Eu nunca tomei ácido, mas deito, boto aquilo, fico viajando, estou na década de 60, naquela viagem de ácido, sem tomar ácido.

Martinelli - Analise as fases do rock. Os 80, foram a década perdida? E as bandas depressivas, o punk, o pós-punk.

Serguei - Se você ouvir um disco de Cazuza, sentindo a emoção dele, o desespero... Não gosto de falar no Cazuza, pois eu fico muito emocionado. Sobre as fases... até a década de 60, até o início da década de 70, foi considerado um sonho. Aí, quando os Beatles se separaram, eu estava vendo o Kojac em casa, quando ouvi que John Lennon havia morrido. "Deu entrada no Rosevelt Hospital um homem com as caracterísitcas do beatle John Lennon, com vários balaços no corpo". 10h30min, parou o Kojac, parou Nova Iorque, parou o mundo. Uma vez o Jornal do Brasil disse que eu não quis sair da adolescência. Claro, rock´n´roll. Guitarras imaginárias. Saltos e energia, 69 anos. Então, sou uma criança. Você vê que tudo isso, meu pau ativo e até a pele... não tenho marcas de senilidade. No ano que vem faço 70. Para mim está tudo legal. Parou na década de 60, tudo bem. É que depois entrou o lixo. Quem viu Black Sabbath, Beatles, Rolling Stones, quem foi ao Woodstock, que viu o Monterey Pop Festival... Eu vi tudo isso, vivi tudo isso. Então não tem como ir para a Dance Music, com Donna Summer. Não tem como eu ouvir um escroto chamado Funk carioca, aquela coisa.

Martinelli - E Sex Pistol?

Serguei - No que se propunham a fazer eram sensacionais, o tal de punk rock.

Martinelli - E Joy Division?

Serguei - Não conheci. Conheci foi Sid Vicious. Estava no camarim do Raul Seixas, uma vez no Teresão, na Siqueira Campos, Rio. Eu e o Raul, a gente não se tocava muito, mas me disseram: "vai lá ver". Cheguei tinha um louro de olhos azuis, sentado, que disse: "Raul, você não lembra de mim, eu era o produtor do Jerry Adriani?". "Lembro", ele disse, "você produziu também o Wanderley Cardoso". Eu gosto de Jerry, mas na época a gente criticava aquela onda de música melosa. Estava também Sid Vicious. Disseram: "brasilian rock star, Serguei". Ele "Oh, oh, Sid Vicious". Dei um beijo nele. Bom. Mas aí veio o buraco negro, com a morte de Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin. Ficou um buraco negro. Veio a famigerada dance music. Foi quando The Who gravou "vai embora imundisco".

Martinelli - E a música dos 90? Nirvana?

Serguei - Azar de quem se influenciou. Eu não vi. Vamos mudar de assunto, por favor.

Martinelli - Para onde caminha a arte?

Serguei - O novo sempre vem, como dizia Belchior.

Martinelli - Fazer o que fizeste, é possível hoje?

Serguei - Não há chance. Não há como ser rebelde sem causa. Não há mais causa.

Martinelli - Mas e qual era a causa na tua época?

Serguei - Era criar e mostrar a criação e não repetir. Aqueles em que a arte consiste em repetir alguma coisa não tem nada a ver. Eu canto só os clássicos do rock´n´roll e do blues, com a minha interpretação, para honrar minha geração, minha época. No tempo do Flávio Cavalcanti todos cantavam Jovem Guarda, batendo com a mãozinha na perna. Mas eu enchia os cabelos de flores, pintava os olhos, um sol no rosto, dourado para comemorar o início da primavera, pintava as unhas de preto, os lábios de roxo e cantava.

Martinelli - Os Secos e Molhados surgiram depois. Vieram na tua cola?

Serguei - Não sei. Devem ter dito: "ainda bem que o Serguei está nos Estados Unidos e não está vendo que tudo que ele fazia, que era loucura, agora virou moda e dá dinheiro". O que eu tenho me basta. Continuo sendo o que eu sou. Minha casa está muito bem montada. Não me preocupo muito com conforto, mas tenho até um ar condicionado, não agüento aquele calor infernal o ano todo no Rio.

Martinelli - Fala sobre o amor.

Serguei - O amor é livre. Tive amores na vida. Não quero falar em nomes. Quer saber se amei homens ou mulheres?

Martinelli - Não me interessa.

Serguei - Meu sentimento e minha emoção estão abertos ao amor. Posso me impressionar por outro cara, como por uma mulher. Não sei. O que pintar, que eu curtir, eu realizo. Tem que ser feliz. Não vou entrar naquela que a sociedade diz. E nem como Roma, que dizia que a homossexualidade era o licor dos deuses. Ou Socrates, era opinião dele. Que as mulheres eram feitas para procriar e os homens para se amar entre si. A cultura greco-romana não condenava a união de mulheres, nem de homens. Veio a cultura judaico-cristã, onde homem nasceu para mulher, mulher para homem e qualquer coisa fora disso é uma anormalidade. Eu não considero emoção, sentimento, uma anormalidade. Anormalidade é recalcar uma emoção. Acabar com uma emoção considero um sofrimento. O amor é uma coisa universal. O amor fraterno também é uma coisa linda. Posso amar um amigo meu fraternalmente, como uma garota também. Recentemente amei um amigo meu de forma fraternal, até paternal. Ele tem 34 anos, eu 69 anos. Eu disse: "você está destruindo sua vida". Mas, como dizia o presidente Kennedy: "A América não pode ajudar aos que não querem ajudar a sim mesmos".

Martinelli - Serguei. De onde veio o nome?

Serguei - É russo, é lindo. Escolha minha. É tão comum como Manoel em Portugal, ou Marcelo, no Brasil.

Martinelli - E a passagem pelo Rio Grande?

Serguei - É a primeira vez que venho ao Rio Grande do Sul. São noites maravilhosas, de homenagens. Nunca fui tão beijado como em Porto Alegre. Beijo na boca e tudo. Os caras se penduram em mim, as mulheres. Fui num bar e estava na fila quando me levaram lá para dentro. Todo mundo aplaudiu. Tocava uma banda parecida com a Black Rio. Tinha até um gordo cantando. É, É. Black Master. O Frejat também cantou três músicas. Nos abraçamos, somos muito amigos. Depois o gordo me chamou para o palco, tirei as botas, ele tirou os sapatos e cantamos. "Não pensa em dinheiro...", Tim Maia. Ele cantava e eu ficava só nos falsetes. Foi lindo. Eu também queria conhecer o Borguetinho. Nos encontramos, ele com a cara limpa, sem chapéu. Disseram "Serguei, esse é Borguetinho". Dei um abraço nele e fiquei pulando. Ele disse que me admirava e eu disse que gostava muito dele. Eu disse: "Você tem que ir para o rock´n´roll". Ele disse que estava gravando um CD com algo de rock. Tiramos uma foto para o Templo do Rock. No centro de Porto Alegre também foi um terror. Nos bares, na Lima e Silva, foi um teste.

Martinelli - Todo mundo te conhece.

Serguei - Por aqui foi maravilhoso. Fiz os programas de televisão.

Martinelli - Deste uma gozada no Jô Soares com a história de comer a árvore e do pansexualismo, não? Foi uma jogada de marketing, não?

Serguei - Claro. Ele não deixou eu falar. Você comeu a árvore, comeu? Comi, Jô, comi.

Martinelli - A Prefeitura subsidia o Templo do Rock?

Serguei - Subsidia. A Prefeitura me dá um dinheiro legal, direitinho, para eu poder sobreviver.

Martinelli - És o promoter de Saquarema no Brasil.

Serguei - Mas nunca nenhum prefeito deu bola para isso. O único que dá é o Peres e o deputado Paulo Melo, que ganhou agora.

Martinelli - E a política?

Serguei - Não me identifico com nenhum partido. Fui candidato a vereador. Ia de sunga, meião e tênis. Esculhambava todo mundo de cima do palanque. Em Saquarema ganhei 380 votos. Não me elegi. Na segunda vez ganhei nove votos, uma maravilha. Mas o que aconteceu. Nunca ninguém prestigiou a cidade. Mas ele mandou reformar a casa, gastou uns R$ 20 mil. Por que? Porque a casa fica numa entrada da cidade, é um espetáculo. O prefeito viu os cadernos com mais de quatro mil assinaturas, na época, de quem visitava o templo. De lá para cá, um ano e pouco, já foram 6.014. A obrigação do político é trabalhar. O deputado Paulo Melo conseguiu com o Garotinho a verba integral.

Martinelli - E os teus discos?

Serguei - Eu não gosto de ouvir os discos que gravei. Mas o que fiz para a BMG Ariola, dá licença. Eu curto. O Jornal do Brasil falou mal. Eu respeito, mas é preciso cuidado com as palavras. Mas tudo bem. Eu subi na estátua do Pequeno Jornaleiro, no Rio, em 67, para pedir liberdade de expressão em plena ditadura. Não é qualquer um que faz ou fez, principalmente no rock´n´roll. Levei borrachada, levei porrada. Saiu na revista Intervalo: Serguei protesta descalço no Rio. Gravei muita coisa. O jornalista disse que somente em Summertimes convencia. Cantei com todo o sentimento. O Sullivan chorou.

Martinelli - E o Lula e o Serra?

Serguei - O Brasil, se fosse um país inteligente, não tentaria ser um país industrial, mas sim agrícola. Dar de comer a essa Índia da América do Sul, onde morrem de fome.

Martinelli - Há alimentos para dez chinas. O problema não é a produção, mas o direcionamento.

Serguei - Como diz o gaúcho: pode ter alimento para cem chinas, tchê, mas para onde vai isso? O Brasil é um país rico, mas não há participação do povo na distribuição dessa riqueza.

Martinelli - Entre o Serra e o Lula, ficas com quem?

Serguei - Entre o Serra e o Lula? O Lula, claro. Não

sou louco.